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25 anos a fazer gente feliz com os olhos nas mãos

1996 - 2021

por: Rui Rebelo *
9 de março de 2021
Logótipo com o número 25 e palavra anos por cima do título
Logótipo com o número 25 e palavra anos por cima do título "AADVDB", o subtítulo "Associação de Apoio aos Deficientes Visuais do Distrito de Braga" e a lema "Gente Feliz com os Olhos nas Mãos"
Os anos passam despercebidos num contínuo rodar dos ponteiros do relógio, marcado por momentos felizes ou tristes. Mas a vida também é construída com base em sonhos e a concretização dos mesmos que se refletem nas obras que nos fazem crescer, por conseguinte mudar e moldar o mundo. Esse mundo maravilhoso descrito através de palavras simples e cantado na voz peculiar de Louis Armstrong.
E não será esse o mundo maravilhoso que todos desejamos?...! Para esse lugar nascer o Homem deve ter a coragem de idealizar a obra para que o sonho se torne real e de todos. Em verdade, cada um de nós é um ser diferente enquanto pessoa única na sua essência e sacralidade, porém devíamos ser todos iguais no que concerne aos direitos e à equidade de oportunidades na substância de seres que partilham a vida em sociedade.

Consubstanciando o célebre slogan “todos diferentes, todos iguais”, tudo começou no ato fundacional consumado no Cine Fórum dos Bombeiros Voluntários da Póvoa de Lanhoso em 19 de janeiro de 1996. Nascia assim, solenemente, uma instituição para colmatar e ultrapassar as diferenças sentidas pelos deficientes visuais e sublinhadas pela sociedade – a Associação de Apoio aos deficientes Visuais do distrito de Braga (designada de modo abreviado pelas iniciais AADVDB).

De facto, já lá vão 25 anos que se cometeu a sua virtude original! Por via da constituição desta estrutura social, um grupo de pessoas comprometidas em fazer o Bem associou-se com intenção de encetar um caminho de perenidade no trabalho arduamente necessário para mostrar quanto o poder do verbo sonhar leva ao fazer e a transformar o ser.

Sempre pela meritória “visão” e indómita intencionalidade do Domingos Silva, este caminho iniciou percurso com registo provisório numa moradia sita em Seides, freguesia de Galegos, concelho da Póvoa de Lanhoso. Mas depressa passou para a vila povoense, encetando a sua Missão “sediada” graciosamente nas instalações da Escola E.B. 2,3 Professor Gonçalo Sampaio. A partir de um protocolo celebrado em 6 de setembro de 1998, passou a operar num pequeno espaço do Edifício-Sede da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários da Póvoa de Lanhoso. Mais tarde, em 16 de setembro de 2006, concentrou a sua atividade nas atuais e magníficas instalações sitas nos Moinhos Novos, da linda vila da Póvoa de Lanhoso.

Um caminho apoiado no instante fundacional por distintas personalidades, nomeadamente, Luísa Maria Monteiro Rodrigues e Manuel Santa Cruz Oliveira (que, juntamente com o Domingos Silva, integraram a respetiva Comissão Instaladora durante o primeiro triénio de vida associativa), Carlos Sousa Dias, Rui António Cunha, António Almeida Santos, D. Eurico Dias Nogueira Cónego Eduardo Melo Peixoto, Padre Vítor Melícias, Padre Manuel Magalhães dos Santos, José Silva Peneda, Fernando Alberto Ribeiro da Silva, Jorge Nuno Pinto da Costa, Gilberto Madaíl, Albino Pinto da Silva, João Tinoco de Faria, Pedro Bacelar de Vasconcelos, António Magalhães Maria Elisa Ferreira, Júlio da Silva Dias, Fernando Mota, Cristiano Brandão Lopes, António Cardoso da Silva, António Cunha e Silva, Belarmino Marques Leite, Belmiro Oliveira, Arlindo Ramalho Coimbra, Manuel Martins Ferreira (Pitães), entre outras individualidades nas quais se incluem o autor destas modestas linhas.

Domingos Silva – um jovem povoense corajoso, irreverente e perseverante, colaborador dos quadros do Hospital António Lopes –, há muito que confessava a beleza do seu sonho de Homem acordado para a vida: criar uma entidade associativa para concretizar o “seu” projeto de representação, defesa, apoio e inclusão dos invisuais.

No momento do plano constitutivo não existia qualquer outra no distrito de Braga para apoio aos invisuais a desenvolver atividade social, daí a AADVDB ter sido absolutamente arrojada na iniciativa inovadora de uma instituição de solidariedade na proximidade a estes utentes-alvo. Como o próprio Domingos referiu numa entrevista ao jornal Correio do Minho, na edição de 18 de fevereiro de 2011: «Os objetivos principais eram a inclusão, formação profissional aos invisuais do distrito de Braga»; Ou, de outra forma, numa reportagem publicada online “Por uma vida melhor e mais feliz – Empresas + Projeto Editorial” (editado em 7 de abril de 2017): «O objetivo era só um: apoiar todos os invisuais do distrito»!

Constituída na ordem jurídica sob a forma de associação sem fins lucrativos, com natureza de IPSS e finalidade de solidariedade social e cultural, «conducente à promoção, integração e inclusão dos deficientes visuais na sociedade», a AADVDB comemora no presente ano as suas bodas de prata ostentando e exteriorizando o mérito de acolher e servir os deficientes visuais e amblíopes que lhe pedem apoio ou ajuda, bem como os respetivos agregados familiares.

Para tal, depois de algumas parcerias de colaboração empreendidas com entidades de renome na Região – com destaque desde logo para o Centro Distrital de Segurança Social de Braga, Governo Civil de Braga, Santa Casa da Misericórdia da Póvoa de Lanhoso (logo no ano fundacional), ISAVE (no ano de 2003), Instituto Nacional da Reabilitação, Instituto Português do Desporto e Juventude, Direção Regional da Educação, Secretariado Nacional para a Reabilitação e Integração das Pessoas com Deficiência, Hospital de Braga, Hospital da Senhora da Oliveira e Hospital Santa Maria Maior (estes no ano de 2011), entre outras instituições –, a AADVDB alcançou em 2006 a pedra angular para se desenvolver e melhor prosseguir os seus fins: a celebração em agosto desse ano (mas apenas vigente a partir do mês de outubro seguinte), com Instituto da Segurança Social, de um Acordo de Cooperação. E dessarte, alcançou o distintivo estatuto de pessoa coletiva de utilidade pública.

No mesmo ano em que foi adotada a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência – um marco histórico na garantia e promoção dos direitos humanos pela comunidade internacional –, o Acordo de Cooperação, de natureza atípica, constitui o instrumento essencial para a AADVDB dispor de capacidade de serviço e resposta adequada às numerosas solicitações que lhe batem à porta resultantes da condição de Deficiente Visual.

Com efeito, transcorridos dez anos da sua fundação, com o apoio da Secretária de Estado Adjunta e da Reabilitação, Idália Moniz, e por via da implantação da resposta social Centro de Atendimento, Acompanhamento e Animação, a história da AADVDB passou a escrever-se com novo vigor valencial. Desenvolve-se e consolida-se desde então um corpo de serviços técnicos multidisciplinares e dinamizadores de atividades nas áreas da Assistência Social, Psicologia, Animação Sociocultural e Recreativa, Educação de Adultos, Motricidade Humana e Reabilitação, Transporte, e bem assim no apoio sempre presente às famílias dos utentes, ora no âmbito das consultas médicas e exames complementares de diagnóstico, ora nas entregas de produtos de farmácia.

Em 3 de dezembro de 2018 a AADVDB iniciou um projeto social inovador, através do qual integrou em março de 2019 na sua estrutura a empreendedora resposta social CAVI – Centro de Apoio à Vida Independente da Póvoa de Lanhoso. No seu âmbito, o CAVI tem sido responsável no terreno pela disponibilização de assistência a pessoas com deficiência ou incapacidade, a fim de promover e valorizar os seus direitos fundamentais, garantir a igualdade de oportunidades e o combate à discriminação, solidão e exclusão social.

Mercê de uma gestão levada a cabo com exigência e rigor, altruísmo e dinamismo, a AADBDV exerce a sua ação por todos os concelhos do distrito de Braga apoiando os deficientes visuais e suas famílias, «fomentando a sua reabilitação emocional, capacitação, autonomia e sociabilização e promovendo uma melhor qualidade de vida». Porquanto, como consignam os seus Novos Estatutos (que, por aprovação unânime da Assembleia Geral de 7 de novembro de 2015, vieram remodelar os Estatutos da Fundação), a sua Missão expressa-se pelo «princípio do humanismo social, nas relações com a sociedade civil e com o Estado no seu todo, e de harmonia com os princípios orientadores da economia social, mormente os da justiça, equidade, solidariedade, cooperação, subsidiariedade, complementaridade e participação, em defesa da dignidade da pessoa humana».

Como reconhecida referência no apoio à Deficiência Visual, com práticas inovadoras e com padrões de qualidade, a AADVDB tem sido promotora para a construção da sociedade solidária e aberta à diferença que todos os seus Associados almejam. Nesse sentido, tem vindo a realizar eventos de enorme alcance cívico, a saber: organização de Encontros Nacionais da Pessoa com Deficiência Visual (o primeiro dos quais em maio de 2007); projetos “Visão Radical”, “Mente Sã em Corpo São”, “Verão em Movimento” (que decorre todos os anos entre junho e setembro); promoção de várias atividades visando angariar fundos para apoio aos invisuais, destacando-se as Galas e os jogos de futebol amigáveis, em especial a vinda do campeão nacional FC do Porto à Póvoa de Lanhoso em 6 de setembro de 2007 (no âmbito da campanha “Azul Solidário”) e a homenagem aos Magriços de 66, que contou com a presença de, entre outros, Eusébio, Coluna, Simões e José Augusto; campanha “Com os olhos nas mãos” (resultante de um protocolo de comercialização com a empresa de ourivesaria Ouronor, Ld.ª, celebrado em 24 de setembro de 2010 na presença da então Ministra da Cultura); participação no Campeonato e Taça de Portugal de Goalball; Boletim informativo ÍRIS; peças de teatro, com saliência para “A Semente da Verdade”; Grupo de Cantares As Nossas Raízes; feiras sociais; ações de sensibilização na comunidade escolar; rastreios e palestras; visitas temáticas e culturais.

Marco mais recente, mas deveras relevante como testemunho da dedicação ao “core” e razão de ser da AADVDB, constituiu em 6 de maio de 2011 a visita do Presidente da República Portuguesa, Aníbal Cavaco Silva, às instalações sociais. Este acontecimento fausto, com enorme cobertura jornalística e participação popular, foi ilustrada com a exibição de alguns trabalhos manuais dos utentes e, outrossim, propiciou o conhecimento de projetos para o futuro da Instituição, mormente passando pela ambicionada aspiração em concretizar uma casa-residencial para invisuais e normovisuais.

Já em 19 de janeiro de 2019 a AADVDB deu um grande passo na nobre missão de trabalhar para atenuar e debelar as dificuldades com que se debatem as pessoas com deficiência visual, tantas vezes «em contextos de carência efetiva, pobreza e quadros psicológicos bastante complexos», celebrando um protocolo com a Associação Nacional para a Inclusão dos Cidadão com Deficiência Visual. Na realidade, estes instrumentos de cooperação e reunião de esforços, recursos e experiências entre entidades ligadas à Deficiência Visual fundam-se no facto da discriminação positiva contemplada na lei não ter uma expressão mais efetiva e consequente para proporcionar o bem-estar harmonioso e igualdade de direitos fundamentais no quotidiano destas pessoas.

Demais, dispondo de um Sistema de Qualidade certificado, com mais de quinhentos associados, a AADVDB reclama a sua sustentabilidade através de ampliação dos apoios por parte da sociedade – sobretudo na componente da responsabilidade social das empresas – e por parte do Estado – especificamente na adequação do Acordo de Cooperação.

Ao cabo do primeiro quartel do século XXI, vivemos uma situação sem precedentes. Vêm agora complexos desafios, porventura representando em cenário de pandemia os maiores desafios da sua existência. No futuro próximo, cuja era mais repercutirá as fragilidades e pobreza das pessoas com deficiência, impõe-se aprofundar a solidariedade e proximidade aos utentes, apoiados em número cada mais crescente, maioritariamente idosos e com baixos níveis de rendimento, dispersos geograficamente por todo o território do distrito.

Ninguém pode ficar para trás! Em contexto de incerteza, é preciso viver, resistir, consolidar, agir. Mostrar grande capacidade de adaptação, inovando na ação solidária, na defesa dos direitos e interesses dos deficientes visuais e bem assim na sua formação e inclusão socioprofissional. Como incessante e assertivamente lembra o Domingos, «muitas têm sido as batalhas, os problemas e angústias, mas a vontade de continuar a lutar, com novos projetos, sempre defendendo os deficientes visuais, lutando pela melhoria de vida daqueles que veem os dias pintados a cinzento».

A história da AADVDB ainda está no início, espelhando a ambição do sonho de Domingos Silva, o invisual mais visível de todos, de um mundo escolhido e guiado pelos sentidos, com generosidade e abnegação. Do caminho para já percorrido, sob o lema Gente feliz com os olhos nas mãos, impõe-se guardar boa nota e continuar o sonho do “mundo maravilhoso”, envolvendo os deficientes visuais na construção de uma sociedade onde sejam olhados na sua plenitude humana, privilegiando a sua autonomia e fazendo-os sujeitos da ação.

Enfim, fomentando “pontes” que conduzam à mudança de atitudes face à Deficiência Visual. Tal como poetizou Ricardo Reis:

«Uns, com os olhos postos no passado,
Veem o que não veem: outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, veem
O que não pode ver-se
.»!
 
* O autor é Advogado e Associado Fundador da AADVDB

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